Texto - Sala de Documentário

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O ROTEIRO IMPOSSÍVEL


É difícil precisar, no caso do documentário, o processo de criação que antecede as filmagens. No caso dos filmes de ficção, é mais exato: quase todo filme de ficção tem um roteiro. As filmagens partem desse guia e, ainda que aconteçam algumas modificações, a ideia central do filme e sua narrativa estão definidas antes da chegada da equipe no set.

Com o documentário não funciona bem assim. Geralmente existe uma ideia, e essa ideia, ainda em estado abstrato, vai definir os primeiros passos a serem tomados para a realização do filme. É quase impossível escrever um roteiro preciso para fazer um doc antes de filmar.

Um documentário pode partir, por exemplo, de uma frase: "acompanhar o Lula durante quarenta dias, até a eleição" (Entreatos). Ou "fazer um filme sobre violência no Rio de Janeiro, ouvindo as pessoas que estão diretamente envolvidas nessa violência: o policial, o morador da comunidade violenta e o traficante" (Notícias de uma Guerra Particular). Ou ainda "saber como é a cabeça e como é o mundo do pianista Nelson Freire" (Nelson Freire).

Todos os filmes citados no parágrafo anterior são do documentarista João Moreira Salles. E todas as frases foram o ponto de partida, foram os "roteiros" escritos por ele antes das filmagens. A partir dessas ideias, foi feito um planejamento de produção. Entrevistados foram escolhidos e contatados. Equipe e equipamentos de gravação foram definidos.

A estrutura narrativa de cada um dos filmes também não respeitava nenhum roteiro exato antes das filmagens e da montagem. João Moreira costuma definir a estrutura narrativa de seus filmes por meio de formas metafóricas: "Entreatos é uma flecha. O que significa uma flecha? Que o tempo avança. O filme vai acompanhar a flecha do tempo. Começa no primeiro dia de filmagem e termina no último dia de filmagem". "Em Notícias de uma Guerra Particular, à medida que fui entrando em contato com a violência, surgiu na minha cabeça a forma circular. O filme se fecha em si mesmo. Ele não vai apontar nenhuma saída. É como uma cobra que morde o próprio rabo". "No caso do Nelson Freire, o que me veio foi a ideia de um filme sem estrutura nenhuma. Molecular. Em que uma sequência não gere a próxima. Não é a lógica da razão. É um filme de estrutura líquida, ao contrário do Entreatos".

É importante, ao sair para realizar um doc, ter domínio do tema a ser tratado. Pesquisas são bem importantes. Buscar ideias que possam nortear a narrativa do filme também. Afinal, andar por aí com uma câmera ao acaso, sem rumo, dificilmente vai gerar um material interessante, que possa ser montado. Como essa espécie de "pré-roteiro" para o doc vai ser escrita é outra história. Pode ser uma frase, uma sinopse de uma página ou uma tese a ser confirmada ou rechaçada. Cada realizador tem seu próprio método. A única certeza é que é na ilha de edição, com tudo filmado, que um documentário ganha o tratamento definitivo de seu roteiro.

Texto: Henry Grazinoli
Consultoria de Conteúdo: João Moreira Salles